Relatividade · De Galileu a Einstein

Paradoxos: gêmeos, Bell, celeiro

Três histórias que parecem contradições. As três são resolvidas por uma pergunta só: quais eventos, em qual linha de mundo? A resposta é um cálculo, e não uma opinião de quem olha.

Já em 1905, Einstein notou que um relógio levado por um caminho fechado volta atrasado em relação ao que ficou. Em abril de 1911, Paul Langevin deu forma humana à conta: um viajante que passa dois anos em uma nave e volta à Terra depois de duzentos. O nome de paradoxo veio porque a dilatação parece recíproca, e nenhum dos dois poderia ser o mais jovem. Não é contradição: a teoria dá uma resposta só, e ela foi medida.

O tempo próprio é um comprimento

A dilatação foi deduzida para velocidade constante. Para um caminho qualquer é preciso uma hipótese a mais, e ela é um dado físico, não um teorema.

Hipótese do relógio Um relógio ideal marca, em cada trecho infinitesimal, o mesmo que marcaria um relógio inercial com a sua velocidade naquele instante. A taxa depende de v, e não da aceleração. Em cada trecho, então, c2dτ2=−ημνdxμdxν, como em Minkowski.

Somando os trechos Com dxμ=(c dt,v dt), vem −ημνdxμdxν=c2dt2(1−v2/c2), e daí dτ=dt/γ. Integrando de A a B, sai a fórmula do alto. Como cada dτ é invariante, a soma também é. Qualquer referencial inercial dá o mesmo número.

A reta é o máximo Se A e B são ligados por um caminho tipo tempo, existe um referencial inercial em que estão no mesmo lugar, a uma distância de tempo T. Nele, o corpo inercial tem v=0 e Δτ=T. Em qualquer outro caminho, o integrando é 1−v2/c2≤1, com igualdade só em v=0. Logo Δτcaminho ≤ Δτreta, com igualdade só para a própria reta. É a desigualdade triangular invertida, em forma contínua.

Ida e volta Se a velocidade é ±v nas duas metades de um tempo total T, a integral dá Δτ=T/γ. Com T=10 anos e v=0,8 c, γ=53 e Δτ=6 anos.

Uma manobra de duração finita Suponha que a velocidade vá de +βc a −βc de forma linear em um tempo D. Nessa etapa, a integral é ∫1−β(t)2 dt=D f(β),f(β)=121−β2+arcsin⁡β2β, e o total é Δτ=(T−D)/γ+D f(β). Com β=0,8, f=0,880. A manobra corrige Δτ em D (f−1/γ), e essa correção some com D. Enquanto isso, a aceleração própria cresce como 1/D.

Resultado. Δτ é o comprimento da linha de mundo, invariante e maior para a reta. O efeito não está na aceleração: quanto mais brusca a manobra, maior a aceleração e menor a sua contribuição para a conta. A aceleração é o que entorta a linha de mundo, e o que importa é a forma final da linha.

A hipótese do relógio foi testada em condição extrema. No anel de múons do CERN, Bailey e colaboradores mediram em 1977 múons com γ=29,33, em órbita circular, sob aceleração transversal da ordem de 1018 g. A vida média foi de 64,4 μs, que é γ vezes o valor em repouso, e a concordância com a dilatação pura ficou, nesse resultado de 1977, em cerca de 2×10−3. O relatório final de 1979 chegou a (0,8±0,7)×10−3. O múon volta ao mesmo ponto do anel muitas vezes: é, literalmente, um gêmeo viajante.

Os gêmeos

Ana fica. Bia parte a 0,8 c, inverte o sentido a 4 anos-luz e volta. Para Ana passam 10 anos e para Bia 6. O argumento contrário é este: do ponto de vista de Bia, quem se afasta é Ana, e então Ana deveria ser a mais jovem. O erro está em "do ponto de vista de Bia": ela não tem um referencial inercial, tem dois. A reciprocidade da dilatação vale entre dois referenciais inerciais, e compara um relógio com dois relógios sincronizados. Aqui há um relógio contra um relógio, nos mesmos dois eventos. A assimetria é geométrica: a linha de Ana é reta e a de Bia tem uma quina. Max von Laue observou isso já em 1911.

Bia pode calcular do seu jeito, desde que faça a conta completa. Em cada trecho ela calcula que o relógio de Ana atrasa pelo fator 35. Quando chega à quina, seus 3 anos correspondem, pela simultaneidade da ida, a t=5−0,8⋅4=1,8 anos de Ana. Pela simultaneidade da volta, ao mesmo evento correspondem t=5+0,8⋅4=8,2 anos. A soma dos dois trechos dá só 3,6 anos, e os 6,4 anos que faltam estão no salto das retas de simultaneidade. Esse salto é uma mudança de coordenadas de Bia, e nada acontece com Ana.

Uma conta sem simultaneidade nenhuma confirma isso. Cada uma envia um sinal de luz por ano do próprio relógio. Enquanto elas se afastam, o espaçamento dos sinais recebidos é multiplicado pelo fator de Doppler k=(1+β)/(1−β)=3, e enquanto se aproximam, por 13. O fator vem da regra do covetor de onda: para luz que corre no sentido do afastamento, com número de onda kx=ω/c, ω′=γ(ω−vkx)=γ(1−β) ω=ω(1−β)/(1+β)=ω/k. Bia inverte o sentido no seu ano 3 e daí em diante recebe em ritmo alto: 1 sinal na ida e 9 na volta, somando 10. Ana só vê a inversão em t=5+4=9 anos, porque essa notícia viaja à velocidade da luz: 3 sinais até lá, e 3 no último ano, somando 6. Cada uma conta exatamente a idade da outra, e a assimetria aparece no momento da troca de ritmo.

Edite a trajetória. Em ida e volta, a integral dá 6,000, igual à soma Δt/γ. Com parada, Bia fica 4 anos parada no meio do caminho, e a leitura é 7,600. Em ziguezague há três inversões, em vez de uma, e a leitura volta a 6,000: só a velocidade importa, e a quantidade de manobras não. Agora volte a ida e volta e abra a duração da manobra para 1 ano: τ=6,280, com aceleração máxima de 7,41 c/ano. Com 0,10 ano, τ=6,028, e a aceleração sobe para 74,07 c/ano. Dez vezes mais aceleração, efeito menor.

Os botões de referencial redesenham a mesma história. Na ida de Bia, ela fica parada 3 anos, com taxa dτ/dt′=1, depois persegue Ana a 0,976 c. A duração total no desenho sobe para 16,667 anos e a altura da linha de Ana desce para 0,6. As áreas continuam sendo 10 e 6, e o τ de Bia, calculado só pelo intervalo dos pontos transformados, não muda.

Unidades com c=1: tempo em anos, distância em anos-luz, e 1 c/ano vale cerca de 0,97 g. Ana é a reta verde e Bia a linha rosa, com uma marca por ano de tempo próprio. No referencial de Ana, arraste os anéis: o losango é o que os dois eventos permitem. No segundo painel, a altura é dτ/dt no referencial do desenho, a área preenchida é o τ de Bia e a linha verde dá o de Ana. O τ de Bia sai de ∫ ⁣1−v2 dt por Simpson, e a linha τ pelo intervalo refaz a conta com os pontos transformados, só com s2: uma soma de cordas, exata nos trechos retos e aproximada nas manobras. Partida e chegada são de passagem, sem manobra.

Em 1971, Hafele e Keating levaram relógios de césio em voos comerciais ao redor do mundo. Aí entram dois efeitos, o da velocidade em relação ao centro da Terra e o gravitacional. Os números estão em dilatação: o relógio que voa para leste volta atrasado e o que voa para oeste volta adiantado em relação aos que ficaram em terra.

As naves de Bell

Duas naves iguais estão paradas em S, a uma distância L, com um fio esticado de uma à outra. Em t=0 de S, as duas ligam os motores com o mesmo programa, e depois os desligam ao mesmo tempo em S, com velocidade v. O fio arrebenta? A questão foi proposta por Dewan e Beran em 1959. Em 1976, John Bell relatou uma consulta informal no CERN, com consenso claro de que o fio não arrebentava. Arrebenta.

Em S, as duas naves têm a mesma x(t) a menos de uma constante, então a distância entre elas é sempre L. A tentação é dizer que tudo contrai junto. Mas contrair não é uma regra sobre distâncias impostas de fora: é o que acontece com um corpo que acha seu equilíbrio. Um fio livre com velocidade v teria em S comprimento L/γ. Aqui ele é obrigado a cobrir L. No referencial em que as naves ficam paradas no final, o vão é

Quem está nas naves vê a causa de outra forma. Os dois eventos de partida são simultâneos em S, e não no referencial final S′. De t′=γ(t−vx/c2), a nave da frente parte antes da de trás, por γvL/c2, e essa vantagem faz o vão crescer. Para v=0,6 c, o vão vai a 1,25 L, e a nave da frente parte 0,75 L/c antes. As duas descrições dão o mesmo resultado, que não depende de referencial: o fio arrebenta ou não. Para manter o fio sem tensão, a nave de trás precisaria acelerar mais do que a da frente.

Aumente a velocidade. O segmento verde, tomado na horizontal de S, mantém o tamanho L. O dourado, tomado ao longo da reta de simultaneidade das naves, cresce com γ. Com o limite de 40%, o fio rompe em v/c=0,700. Em v/c=0,600 o alongamento é de 25,0%. Reduza o limite e veja o ponto de ruptura mudar.