O tensor métrico e suas operações
Um campo de produtos escalares, um em cada ponto. Dele saem comprimento, ângulo, volume, gradiente, laplaciano e tempo próprio.
Em operações com tensores a métrica era uma matriz fixa que sobe e desce índices, e em Minkowski era a forma η, igual em todo lugar. Agora ela depende do ponto. Toda a geometria que se pode medir numa variedade está nessa única função, e esta seção mostra como extrair cada medida dela.
Um produto escalar em cada ponto
Uma métrica numa variedade é a escolha, em cada ponto x, de uma forma bilinear gx sobre os vetores tangentes em x, simétrica e não degenerada, que varia suavemente com x. Não degenerada significa que gx(u,⋅)=0 só para u=0, e é isso que garante a inversa gij. Positiva ela não precisa ser: η não é, e os tipos de métrica nascem daí. Numa carta de coordenadas xi, os vetores ei=∂/∂xi formam uma base em cada ponto, e as componentes são funções.
Uma superfície em R3 recebe sua métrica de graça. Se X(u1,u2) é a superfície, os vetores tangentes são ei=∂iX, e o produto escalar do espaço ambiente, restrito a eles, dá a métrica induzida gij=∂iX⋅∂jX. Na esfera X=a(sinθcosφ,sinθsinφ,cosθ) sai g=diag(a2,a2sin2θ). Na sela z=xy/2, com ∂xX=(1,0,y/2) e ∂yX=(0,1,x/2), sai uma métrica com termo cruzado, pois as linhas de coordenadas não se cruzam em ângulo reto.
A partir daqui esquecemos o espaço ambiente: tudo o que segue usa só gij(x). É o único ponto de vista disponível para o espaço-tempo, que não está dentro de nada.
Comprimento, ângulo e volume
Numa base ortonormal as três fórmulas são as da escola. Aqui nada é ortonormal: partimos de vetores v=viei com ei⋅ej=gij e chegamos às fórmulas gerais. Nos passos 1 a 5, g é positiva; o último conta o que muda quando não é.
Comprimento de vetor e de curva Por bilinearidade, ∥v∥2=g(viei,vjej)=gijvivj. Uma curva percorre, em dλ, o vetor x˙idλ, logo L=∫λ0λ1gij(x(λ)) x˙ix˙j dλ. Trocar o parâmetro por μ(λ) crescente multiplica a velocidade por dλ/dμ e a medida de integração por dμ/dλ: os fatores se cancelam. L é da curva, não do parâmetro.
Ângulo Para todo t real, g(u+tv,u+tv)≥0. Esse trinômio em t não muda de sinal, então seu discriminante não é positivo: g(u,v)2≤g(u,u) g(v,v). É a desigualdade de Cauchy-Schwarz, que garante ∣cosα∣≤1 na definição cosα=gijuivjgklukul gmnvmvn. Para os próprios eixos, cosα12=g12/g11g22. Eis o sentido do termo cruzado: g12=0 é o mesmo que linhas de coordenadas perpendiculares.
Área de um paralelogramo Sejam u,v em duas dimensões e B a matriz cujas colunas são suas componentes. A matriz dos produtos, ou de Gram, é G=BTgB, portanto detG=∥u∥2∥v∥2−g(u,v)2=detg (detB)2. O lado esquerdo é ∥u∥2∥v∥2sin2α, a área ao quadrado. Logo aˊrea=detg ∣u1v2−u2v1∣. O segundo fator é a área que se leria nas etiquetas, e detg é a correção.
Volume em n dimensões Tome em um ponto uma base ortonormal e^a e escreva ei=Eaie^a. Na base ortonormal, o volume do paralelepípedo de arestas ei é ∣detE∣, e gij=EaiEbj δab⇒g=ETE⇒detg=(detE)2. Assim, o volume da célula unitária de coordenadas é detg, e a célula de lados dxi tem dV=detg dnx.
Por que esse volume não depende da carta Em outra carta, a mesma célula tem g′=JTgJ, com J o jacobiano, e portanto detg′=∣detJ∣detg. Já dnx=∣detJ∣ dnx′. Multiplicando, detg′ dnx′=detg dnx. Nem detg nem dnx são escalares. O produto é. Por isso todo integrando físico vem com esse fator.
Quando g não é positiva Na assinatura (−,+,+,+) vale detg<0, e o volume usa −g d4x, que continua invariante pelo mesmo cálculo. O comprimento se divide: uma curva tipo tempo tem c dτ=−gμνdxμdxν. O trinômio do passo 2 muda de sinal, e a desigualdade se inverte para dois vetores tipo tempo u,v: g(u,v)2≥g(u,u) g(v,v),coshφ=−g(u,v)g(u,u) g(v,v)(u,v no mesmo cone). O ângulo entre dois vetores tipo tempo é a rapidez, não limitada. Com uμ=(1,0) e vμ=γ(1,β) em (ct,x), a fórmula dá coshφ=γ. Para β=35, γ=54 e φ=ln2.
Resultado. L=∫gijx˙ix˙j dλ, cosα=g(u,v)/∥u∥∥v∥ e dV=∣g∣ dnx. Só o último precisa do determinante, e só o produto ∣g∣ dnx é escalar.
Um exemplo em cada fórmula, com a sela no ponto (1,1), onde g=(5/41/41/45/4). Os eixos fazem ali cosα=14/54=15, ou 78,5°. O vetor (1,0) tem comprimento 5/2≈1,118. A célula unitária tem área 3/2≈1,225, menor que o produto dos lados, 5/4, porque está inclinada: de fato 54sin78,5°≈1,225.
As operações que usam g
Subir e baixar índices seguem como em operações com tensores, com fatores que agora mudam de lugar para lugar. Com g=diag(1,r2), vθ=r2vθ. Na sela em (1,1), a inversa é g−1=(5/6−1/6−1/65/6), e o vetor (1,0) desce a (54,14): baixar um índice mistura componentes quando há termo cruzado. O que é novo aqui é o que depende de ∣g∣.
A divergência mede o fluxo que sai de uma célula por unidade de volume. A célula tem volume ∣g∣ dnx, e o fluxo pelas faces é contado por ∣g∣ vi. Compondo com o gradiente gij∂jf sai o laplaciano. As duas fórmulas valem em qualquer carta.
Em polares, g=r e gθθ=1/r2, logo Δf=1r∂r(r ∂rf)+1r2∂θ2f. Na esfera, g=a2sinθ e Δf=1a2sinθ∂θ(sinθ ∂θf)+1a2sin2θ∂φ2f. Teste com f=cosθ, a altura sobre o equador: Δf=−2f/a2, o primeiro harmônico esférico, com ℓ(ℓ+1)=2.
Uma última operação aparece em toda conta de curvatura. A derivada do determinante é um traço, δdetg=detg gijδgij, como mostra a expansão de det(g+δg)=detg det(I+g−1δg) em primeira ordem. Portanto
Contas completas
Espiral no plano. A curva r=θ, com θ de 0 a 2π, tem r˙=1 e θ˙=1 tomando λ=θ. Então gijx˙ix˙j=1+θ2, e L=∫02π1+θ2 dθ=12[θ1+θ2+arsinhθ]02π≈21,26.
Circunferência numa esfera. A métrica decide o que é um círculo. Todos os pontos a distância ρ do polo, medida ao longo da superfície, formam o paralelo θ=ρ/a, cuja circunferência é C=∫02πasinθ dφ=2πasin(ρ/a), menor que 2πρ. Da mesma forma, a calota tem área ∫ ∫a2sinθ dθ dφ=2πa2(1−cosθ), e θ=π dá 4πa2. Na Terra, com a=6371 km e ρ=1000 km, C/2πρ≈0,9959: um déficit de 0,41%, mensurável sem sair da superfície. É um primeiro sinal de curvatura.
Um relógio no espaço-tempo. Um relógio parado na carta tem c dτ=−g00 dx0. Em Rindler, gηη=−(αξ/c2)2c2 dá dτ=(αξ/c2) dη: o ritmo depende da posição. Dada a métrica de Schwarzschild, em unidades c=G=1, gtt=−(1−2M/r), e em r=6M o relógio marca dτ/dt=2/3≈0,816. Toda quadrivelocidade obedece a gμνuμuν=−c2, que é a definição de τ lida ao contrário.
A régua na superfície
Mova o ponto P ao longo da curva. A superfície inicial é a esfera, com o paralelo θ=60°: na carta ele é uma reta de comprimento 2π≈6,283, e a integral dá L=5,441, que é 2πsin60°. Em P, detg=0,866, e o anel dourado, um círculo no plano tangente, é uma elipse na carta, mais larga em φ. Um ângulo de 45° nas coordenadas é 49,1° medido com g. Na sela, com a diagonal x=y, a soma nas coordenadas é 5,657 e L=7,191, e as marcas se apertam na carta perto das pontas. Com P em 0,75, sobre o ponto (1,1), os mesmos 45° viram 39,2°. Leve A ao polo da esfera ou ao centro do plano, com P sobre A: detg=0, e o laboratório avisa que é borda das coordenadas. A superfície não tem nada de especial ali. A carta é que falha.
No primeiro quadro, a carta; no segundo, a superfície. Arraste A, B e o controle Q. As marcas brancas caem a cada passo fixo de comprimento próprio: iguais na superfície, desiguais na carta. O anel dourado é gijwiwj=ρ2 em P: elipse na carta, círculo no plano tangente. A seta turquesa U é a tangente unitária da curva, e a rosa V faz com ela, nas coordenadas, o ângulo do controle. A carta usa a mesma escala nos dois eixos.