Monte Carlo: simulando a integral de caminho
Com a ação euclidiana como peso de Boltzmann, amostra-se o vácuo por importância — e medem-se observáveis ab initio.
Após a rotação de Wick, eiS→e−SE: a integral de caminho vira uma soma estatística, idêntica à mecânica estatística. Pode-se amostrá-la.
Por que sortear em vez de integrar
Uma rede modesta de 324 sítios tem ∼106 links, cada um uma matriz SU(3) com 8 parâmetros: a integral tem cerca de 107 dimensões. Nenhuma regra de quadratura funciona. Mas quase todas as configurações têm peso e−SE desprezível. A ideia de Monte Carlo é gerar uma amostra de configurações já com a probabilidade certa, p(U)∝e−SE[U]; aí a média vira uma média simples, ⟨O⟩≈1N∑kO(Uk), com erro ∼1/N, independentemente da dimensão.
Cada sítio tem um spin si=±1 e a energia é E=−J∑⟨ij⟩sisj. Para virar um spin com 4 vizinhos todos para cima: ΔE=+8J. A T=2,27J (a temperatura crítica de Onsager), a chance de aceitar é e−8/2,27≈3%. Com 2 vizinhos para cima e 2 para baixo, ΔE=0 e a virada é sempre aceita. Repetindo isso milhões de vezes, aparecem os domínios e a transição de fase, sem resolver nenhuma equação.
O exemplo do texto usa T=2,27J, a temperatura crítica de Onsager do Ising 2D, E=−J∑⟨ij⟩sisj. Vamos obtê-la sem resolver o modelo: a função de partição, expandida em alta e em baixa temperatura, é a mesma soma sobre polígonos, e o ponto auto-dual é o crítico. Seja K=J/T (kB=1), N sítios numa rede quadrada (toro) e 2N ligações; ignoramos efeitos de fronteira (limite termodinâmico).
Expansão de alta temperatura Como ss′=±1, eKss′=coshK (1+t ss′) com t=tanhK. Então Z=(coshK)2N∑{s}∏⟨ij⟩(1+t sisj). Ao expandir, a soma sobre os spins zera todo termo em que algum sítio tem um número ímpar de ligações escolhidas (∑ss=0); sobrevivem os subgrafos de grau par em todo sítio (polígonos fechados), cada um valendo 2Ntℓ, com ℓ o comprimento: Z(K)=2N(coshK)2N P(t),P(x)=∑polıˊgonos Cxℓ(C).
Expansão de baixa temperatura Parta do estado ordenado (energia −2NJ, peso e2NK, duas vezes por causa da inversão global). Cada ligação com spins opostos troca eK por e−K, isto é, custa um fator e−2K. As ligações opostas formam as paredes de domínio, que são polígonos fechados na rede dual (cuja ligação cruza cada ligação da original). Então Z(K)=2 e2NK P(e−2K), com a mesma função P, porque a dual de uma rede quadrada é uma rede quadrada, com o mesmo número N de sítios.
A dualidade Dado K, defina K∗ por e−2K∗=tanhK. Pelos passos 1 e 2, P(tanhK)=P(e−2K∗), e portanto Z(K)2N(coshK)2N=Z(K∗)2 e2NK∗. A energia livre em K (alta temperatura) é, a menos de uma função analítica, a energia livre em K∗ (baixa temperatura). A singularidade de uma corresponde à da outra.
A forma simétrica De e−2K∗=t: sinh2K∗=12(t−1−t)=1−t22t, e sinh2K=2t1−t2. Logo sinh2K sinh2K∗=1. A dualidade troca K grande por K pequeno, e tem um ponto fixo K∗=K.
O ponto auto-dual Se há uma única temperatura crítica (confirmado pela solução de Onsager), ela é o ponto fixo da dualidade: sinh2Kc=1, isto é, K∗=K, ou tanhK=e−2K. Com t=tanhK tem-se e−2K=1−t1+t, logo t=1−t1+t, t2+2t−1=0 e t=2−1: Kc=12ln(1+2)=0,44069,Tc=JKc=2Jln(1+2)=2,2692 J.
O teste de Metropolis do texto Virar um spin com 4 vizinhos alinhados custa ΔE=8J. Em Tc, a probabilidade de aceitação é e−ΔE/Tc=e−8/2,2692=0,0294≈3%, como no texto. Abaixo de Tc quase nenhum vira (ordem); acima, muitos viram (desordem); em Tc o sistema fica entre os dois.
Resultado. sinh2Kc=1, Tc=2J/ln(1+2)=2,2692 J, aceitação 2,9% para ΔE=8J. Aproximação: o argumento pressupõe uma única singularidade e despreza as correções de fronteira e de laços não triviais do toro (irrelevantes no limite N→∞). A mesma ideia de dualidade, aplicada às teorias de gauge na rede, relaciona acoplamento forte e fraco (discretização).
Amostrar todo o espaço de configurações é inviável; a amostragem por importância (algoritmo de Metropolis) gera configurações já distribuídas ∝e−SE. Ajuste a temperatura e observe a termalização e a transição de fase.
Modelo de Ising 2D, 64×64 spins, com o mesmo algoritmo da QCD na rede: propor uma mudança e aceitá-la com probabilidade min(1,e−ΔS), aqui S=−β∑⟨ij⟩sisj. Acima de Tc=2/ln(1+2)≈2,269 os spins ficam desordenados; abaixo, formam domínios e a magnetização aparece espontaneamente (quebra de simetria s→−s). Resfriar devagar varre a temperatura e marca ∣m∣ medido, que segue a solução exata de Onsager (curva). Perto de Tc os domínios ficam de todos os tamanhos: flutuações críticas, a mesma física do limite do contínuo na rede.
Grupo de renormalização por blocos
A ideia que tornou o limite do contínuo pensável veio desse mesmo modelo. Agrupe spins em blocos e pergunte que teoria descreve os blocos: abaixo da temperatura crítica o agrupamento converge para ordem, acima apaga a estrutura, e exatamente em Tc a imagem parece igual em todas as escalas. Um limite do contínuo é uma trajetória que sai de um ponto fixo assim. A simulação abaixo usa aglomerados de Wolff, que não sofrem a desaceleração crítica do Metropolis; a equação de Callan–Symanzik correspondente está no grupo de renormalização.
Um modelo de Ising 128×128 simulado de verdade (aglomerados de Wolff). Cada painel seguinte troca blocos 2×2 por um único spin, pela regra da maioria: é a transformação de Kadanoff. Abaixo de Tc o agrupamento converge para ordem (ponto fixo de temperatura zero); acima, apaga a estrutura (ponto fixo de temperatura infinita); exatamente em Tc=2/ln(1+2)≈2,269 os painéis parecem estatisticamente iguais: o ponto fixo crítico. O limite do contínuo de uma teoria de campos é uma trajetória que sai de um ponto fixo assim; para Yang–Mills, o ponto fixo é o gaussiano g=0.
O que a rede entrega
Massas de prótons, píons e ressonâncias a partir só das constantes da QCD — concordância de poucos % com o experimento.
A peça não-perturbativa do momento magnético do múon, no centro da tensão atual entre teoria e experimento.
A transição de desconfinamento e o plasma de quarks-glúons (universo primordial, colisões de íons pesados).
Tudo o que esta parte calcula pressupõe uma teoria contínua que ainda não foi construída rigorosamente. O módulo O problema de Yang–Mills explica o que falta: o Problema do Milênio de Yang–Mills.